Mesmo agora, três anos depois, Vane ainda conseguia se lembrar de cada detalhe daquele curto caminho. Do tapete sob seus pés nus, da maneira como as sombras pareciam distorcer até os mais familiares objetos.
A cada passo que dava, esperava que luzes fossem se acender e que fosse escutar a voz de seu pai perguntando o que ela estava fazendo. Supunha que deveria dizer que não estava conseguindo dormir e que estava indo até a cozinha aquecer um pouco de leite. Ele acreditaria nela, porque ela nunca lhe dera motivos para pensar o contrário. Pelo menos não até agora, ela concluiu.
Mais de uma vez, ela havia ficado tentada a dar meia-volta e formular alguma desculpa para Simon.
Mas eu o amo, recordara-se. Deveria querer fazê-lo feliz. Quando estivesse nos braços dele, sentir-se-ia diferente. Tinha certeza. Estava convencida de que aquele frio na boca do estômago se dissolveria em algo mais caloroso e mais receptivo.
E no entanto...
Estaria mentindo se não esperasse que sua primeira vez com Simon fosse de algum modo mais significante. Mais romântico do que esse momento furtivo e apressado que a esperava. Mas lembrava-se das conversas com as amigas da escola, que diziam que a primeira vez não era grande coisa. Simplesmente algo que tinha de acontecer e que experiências muito mais prazerosas poderiam se seguir. Também havia a questão de controle de natalidade. Vane era a única garota de sua turma que não tomava pílula. Mas Simon sabia disso e tinha ele mesmo se preparado, ou ela teria de fingir que estava tudo bem e assumiria as conseqüências?
Seu pai ficaria zangado e desapontado, claro, mas como ela e Simon estavam planejando se casar de qualquer maneira, seria realmente tão ruim se a data do casamento fosse mudada porque estava grávida?
Bem, a resposta breve era sim. Porque era a última coisa que ela queria que acontecesse. E a situação seria muito mais fácil se a carreira de Simon não estivesse parada. Como ele poderia ter uma esposa e um bebê sem um salário fixo ou uma casa? O pai dela talvez lhe oferecesse alguma coisa, mas não podia contar com isso. Não quando ele ainda não o considerava nem mesmo um genro.
Respirando fundo, ela abriu a porta da estufa, o calor era reconfortante. Vane ficou parada por alguns segundos, de olhos fechados, sentindo o perfume da terra e escutando o barulho familiar do aquecimento.
Não havia outro som. Nem movimento. E ela percebeu, sentindo algo muito parecido com alívio, que Simon não estava lá. Mas talvez devesse esperar mais um pouco, pensou com relutância. Afinal de contas, não podia ir para a cama deixando a porta aberta e, certamente, também não o queria chegando mais tarde, tentando abrir a porta e acordando a casa inteira para entrar.
Oh, Deus! Eu nunca, nunca deveria ter concordado com isso, ela resmungou mentalmente, sentando-se em um banco. Sentou-se tensa, mãos cruzadas no colo, desejando que os minutos se passassem com mais rapidez.
Quando visse Simon depois daquela noite, fingiria que nada havia acontecido, disse para si mesma. Falaria para ele que seu pai estivera à espreita e que ela não havia ousado sair do quarto. Esperava que ele não fosse perder a viagem.
Estava se levantando quando percebeu a porta dos jardins se abrindo silenciosamente. Por um breve instante ficou gélida ao perceber que já era tarde demais para fugir.
Esse é Simon, ela lembrou-se com urgência. Esse é o homem que você ama e quer. E já está na hora de se comprometer com esse amor.
Ela respirou fundo, depois correu até ele, atirando-se em seus braços, que instantaneamente fecharam-se quando ela levantou o rosto para beijá-lo.
Mas, em vez da paixão que esperava, ele estava comedido. E Vane ficou agradecida por isso.
De olhos fechados, ela entregou-se ao prazer dos lábios gentis dele nos dela, a exploração dos cantos de sua boca como se isso fosse um território estranho para ele. Como se...
E nesse mesmo instante soube com total clareza que estava errado, tudo errado. Que o corpo firme e masculino contra o seu era mais alto do que o de Simon, e muito mais musculoso. Que não estava sendo beijada como Simon a beijava. E que aquele homem tinha um cheiro diferente, a colônia pós-barba de Simon tinha sido substituída por alguma coisa infinitamente mais sutil e sofisticada.
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